28/05/2008

PEREGRINAR A PÉ: Razões Teológicas e Antropológicas

José da Silva Lima,
revista “Teológica”, 2ª série, 36.2 (2001), pags. 403 a 413


Se no mundo cristão é sobretudo a partir da “paz da Igreja” que o fenómeno da peregrinação se vai intensificar, assumindo ou não uma herança de muitos séculos no judaísmo, o mesmo fenómeno, “fundamental na antropologia religiosa” constitui, através das culturas, do espaço e dos milénios, “um tempo forte de experiência religiosa colectiva e individual”.
No quadro religioso do Egipto antigo, os mortos eram conduzidos a Bonsiris, lugar da paixão osiriana, ou ao cumprimento dos mistérios de Abydos. Delfos, Delos ou a Ilha Santa, santuários consagrados ao culto de Apolo, eram pelos finais do séc. V a.C. lugar de “panegíricas”, festas públicas de assembleia em honra dos deuses e na presença da multidão peregrina.
Também nas origens da religião de Israel estão lugares de peregrinação ligados a santuários de culto cananeu de tradição insigne, como Siquém ou Hebron, ou de religiosa devoção como Silo.
No coração dos Islamismo, a peregrinação a Meca é inevitável, voltando-se os sunitas para o túmulo do Profeta em Medina e os chiitas para as cidades santas de Karbalá (no Iraque) ou de Mashad.
Na Índia, Benarés ou Gaya confirma o dado fundamental da peregrinação humana como estruturante, como o faz a tradição nipónica com a peregrinação búdica Shikoka aos 80 santuários.

No Cristianismo, e sobretudo a partir do século IV, “a migração peregrina vai, ao longo dos séculos da Idade Média, estabelecer-se neste triângulo da Cristandade definido por Jerusalém, Roma e Compostela” : Jerusalém, como teatro do mistério redentor, centro do mundo criado, lugar da segunda vinda de Cristo e figura, anúncio, construção da Jerusalém celeste, a única Cidade Santa ; Roma, como lugar dos Apóstolos (Limina Apostolorum), onde (estão) os túmulos de Pedro e Paulo e todos os monumentos dos mártires da Fé ; nos confins do lado do poente do mundo conhecido, Compostela, onde o culto do apóstolo Santiago o Maior animará o combate libertador da presença infiel na Península Ibérica.

Estes grandes lugares aparecem como a inscrição monumental de uma realidade sempre presente ao longo das gerações da humanidade.
Quando o religioso muda de figura, quando as grandes religiões parecem não possuir mais aquele poder espiritual mítico de fascínio, os grandes lugares permanecem como “focos abrasadores” e como “espaços turísticos” a exercer influências arrebatadoras.
Estar em Kioto, passar por Bénarés, visitar Roma, ir a Meca, deixar marca em Compostela ...
inscreve-se hoje no mesmo mistério de fundo religioso que se traduzia nas peregrinações à Terra Santa ou que se traduzia nas idas a Tours, a Colónia, a Turim, a Loreto, a Chartres, a Saint Michel, a Locarno ou a Kiev (Rússia) e que se traduz na passagem por Guadalupe, Lourdes ou Fátima.
Grandes lugares, onde na nossa civilização se chega de variadas formas, mas que se alcançam e visitam sempre a pé.
Usam-se os dispositivos riquíssimos que os saberes tecnológicos disponibilizam, mas a atitude fundamental permanece como a dos séculos anteriores, a pé.
Rezam-se outras jaculatórias e participa-se em rituais talvez menos canónicos de tradição, mas homens e mulheres estão de pé, medem algum espaço, superam alguma estranheza e balbuciam sempre algum sentido diferente.
A peregrinação, hoje como ontem, altera distâncias sem suprimir a distância, propõe novidade sem liquidar a novidade, propõe novos sentidos para quem mendiga o sentido que vai na frente.
O vasto universo da peregrinação, de extraordinária riqueza, testemunhando a constância e a profundidade de uma necessidade religiosa inscrita no ser humano, traduz a ânsia secreta de caminhar a pé, no interior de um itinerário que prende cada um à luminosidade de um outro universo ou à clareza de um novo lugar sem identificação, gravadas no “santo ícone” de Nossa senhora de Czestochowa, na “Montanha da Luz” de Iasna Cora ou na “Senhora revestida de Sol” em Fátima.

1. O pé

O pé aparece como a raiz de cada homem ou mulher, a sua planta, que o liga a uma terra por onde passa e que lhe murmura aquele testemunho de alguma segurança. O pé é a raiz implantada numa tradição, dando vigor a um tronco que atravessa um longo processo de amadurecimento.
O pé é a estaca móvel de uma pessoa que a prende àquilo que recebe como património e que lhe entrega as primeiras sensações da terra-mãe que o acalenta.
A descoberta do pé faz-se de forma precoce: retomando a posição pré-natal, o bebé acaricia aquela raiz que vai consigo pela estrada singular que começa a ser a sua, beijando-o na tentativa de regresso àquela terra original sem falha.
A passagem à singularidade conta com o pé, que faz o ser humano estar no seu lugar inconfundível, onde ninguém estará em sua vez, onde ninguém poderá substitui-lo.
É, por isso, a estaca móvel da singularidade.

Cedo, o pé se torna o lugar de transição para o mundo que cada um começa a edificar.
Olhando-o e brincando com ele, cada ser humano prepara o seu pé, criando com ele uma atmosfera de confiança, medindo-o bem, tornando-o com algumas carícias cúmplice com a sua história pessoal, a conduzir pelo seu próprio pé.
Há um excesso de afectividade, que ali começa, e que gera uma confiança informal que se manterá ao longo da vida.
Nunca lhe pedirá razões, e por isso põe-no próximo da sua própria palavra.
E se o pé lhe devolve as primeiras sensações do lugar novo que habita, cada homem (bebé) enche-o das carícias de que é capaz, numa atitude geradora de inegável confiança.

O pé torna-se sinal de aventura quando passa a segurar o ser na sua trajectória. Está ali o ponto de equilíbrio que se vai testando nas primeiras tentativas de êxodo conquistando os lugares livres da primeira experiência.
O pé reúne as marcas sensíveis e físicas dos primeiros ensaios de mobilidade que dão a cada um aquela leveza para a qual sempre tenderá.
O pé aparece como a asa do ser humano, proporcionando-lhe a travessia das sendas que farão a sua história, aguentando de forma delicada com o peso que é seu.
E é o pé que fornece ao seu dono aquelas fronteiras de carga, aquele limite de bagagem para que lhe seja voar para longe.
É nesta cumplicidade, num diálogo discreto de sensações, que o ser humano pode ir longe no diálogo e por seu pé, sem que isto lhe permita mergulhar em atitude doentia de individualismo.
O ser humano cedo aprende a lição da solidariedade sem falha do pé com o pé. Um não é sem outro ou sem o seu substituto.
O pé é solidário do seu parceiro, atitude constante que o leva a suportar até algum excesso, alguma desmedida.

O pé de cada um traça também a orientação.
A sua própria disposição corporal é sentido para a frente é avanço, como se de proposta de superação se tratasse inscrita na própria moldura.
Um paralelo ao outro, apontam ambos a direcção da frente na cooperação bem equilibrada, na distribuição equitativa do peso e num entendimento recíproco sem necessidade de palavras.
Assim, na planta do pé, o ser humano sabe-se vocacionado ao futuro porque enraizado no passado que o faz ser; não se prepara para andar a recuo, não faz marcha-atrás, segue no encalce daquilo que ainda não possui e pertence-lhe a própria dádiva que vem da frente como tempo inédito que integrará a sua história.
É a partir da frente, orientação inscrita no pé, que a sua vida produz alguma coisa, é do futuro que arrancam possibilidades de ser mais ou de ser de outra forma.
O pé aparece como a síntese corporal do tempo que fundamenta e do tempo que projecta.
O pé, como o presente, tem a marca da memória e o signo do possível na harmonia da planta humana cheia dos riscos de uma originalidade.
O pé é misto de arquivo e de projecto, por isso é planta e é asa. O pé é plano e ponta, é alicerce e abertura, é estabilidade e movimento.
O pé é a seta do peregrino que cada ser humano descobre ser.

O pé é a totalidade enquanto suporte último dos elementos conjugados em cada pessoa e, ainda que retido em pausa, ele indicia um movimento incessante, qual aventura de integração daquilo que pode ser desde que haja movimento interior. Mesmo em pausa, o pé constitui desafio ao movimento interno daquela totalidade humana que identifica cada pessoa.
Neste sentido, o pé importa mantê-lo para que não haja desequilíbrio, e perder o pé será porventura esquecer a orientação desta totalidade e passar o tempo presente à deriva.
Daí que não interesse perdê-lo, o que significaria entrar em naufrágio, mas tê-lo bem assente na terra, o que significa manter aberta a respiração da esperança que a própria planta do pé desenha.
Entre o pé e a terra há sempre um ligeiro vazio que faz respirar este suporte vivo da personalidade.
O pé evoca a totalidade que suporta, física e espiritual, enraizando e abrindo, emprestando certeza e abrindo à certeza inédita que faz ser.

O pé é a primeira medida, quer da totalidade que pesa, quer do tempo que estrutura, quer do espaço que ajuda a perceber a distância.
O pé comporta esta capacidade de medir quer o dinamismo do movimento quer os sucessivos obstáculos que cada pessoa enfrenta no seu quotidiano.
Sabemo-lo da lenda de Buda que “desde o nascimento, mediu o universo dando sete passos em cada uma das direcções do espaço”, ou do Visnu que mediu o universo em três passos, o da terra, o intermédio e o céu.
É que o pé torna-se passo na medida em que mede e orienta.

2. A pé

Homem ou mulher, o ser humano pondera e calcula a pé, como caminha, avança e desafia a pé também.
A primeira medida e seta de orientação tornam-se passo, isto é, movimento cadenciado de solidariedade entre os dois pés.
Entre o pé e o passo existe unidade.
A pé, dando passos, enfrenta cada um aquela viagem que o faz ser.
Dando passos, cada ser humano segue a orientação do pé na origem e avança com aquela segurança que só a confiança do pé lhe devolve.

A pé, enfrenta a vida contra as inseguranças que a memória lhe foi registando e abre-a a outros horizontes que os seus passos torna possíveis.
Assim faz-se, inventando o seu próprio caminho, escutando a memória que lhe devolve recordações e vislumbrando o além.
A pé, enfrenta e projecta.
Os seus pés tornam-se andar, e a sua história um andamento ritmado de certeza e ousadia.
E vai sabendo que não há caminho sem recordação e sem vislumbre, não há estrada sem arranque e sem desafio, não há mais sem o que já tem e o inédito.
A pé, cada ser sabe-se enraizado e lançado ao vento, compreende-se abraçado à terra e voando me direcção do sol, composto do peso que transporta e da respiração que o embala na leveza.
A pé, no caminho assentam os pés atraídos pelo além e logo se transformam em asas que lhe abrem as portas do desconhecido.
A pé, cada homem ou mulher medeia entre o passo da terra e o passo do Céu, apurando as sensações de peregrino entre as urzes dos encontros, o canto das aves a meio do horizonte e as luzes do tapete estelar.
A pé, vai aprendendo os cheiros da realidade e desinfectando ambientes a partir do sonhe que o faz avançar no caminho.

A pé, cada um abre o caminho que é seu na certeza de que muitos o fizeram antes e na clareza de que ninguém repete ou retoma os seus passos.
É que os seus pés deixam as marcas da sua singularidade.
Milhões se votaram à mesma aventura, mas ninguém o substitui naquela que o identifica.
Há peugadas que não se confundem com as de ninguém ; são as suas.
Há marcas e sinais que ficarão como prova da passagem, daquele andamento que é o seu e que fica retido nos anais como irrepetível.
Outros passarão por aqueles lugares descobrindo o sentido da sua caminhada, mas os seus pés devolvem-lhe traços irrepetíveis.
O caminho é sempre o de cada um, com as suas marcas suaves desenhadas por perplexidades e por desejos.

A pé, abrindo o caminho, cada homem é peregrino precedido e sucedido, constatando nas marcas que encontra a multidão peregrina que lhe está na origem e assegurando a si mesmo , no murmúrio de quem vem na retaguarda, a continuidade da aventura.
Não lhe adverte a consciência o isolamento ou a solidão, mas confia-lhe as sendas da multidão passada e vindoura.
A pé, encontram-se as marcas de outros peregrinos mesmo quando se experimenta a peugada do Santo, quando os pés se voltam para Oriente ou quando a direcção faz descobrir lugares inéditos cheios de outra luz.
Outros passaram por ali e muitos virão depois, mas o caminho singular fica gravado no interior de cada um, que na sua simplicidade de peregrino feliz por ter chegado não se deixa apanhar pó na pausa e logo retoma a marcha que o conduzirá mais além.
Trata-se de um caminho interior, repleto de pausas de vislumbre, que ele vai descobrindo ao dar passos e que lhe confirma que ainda não chegou à terra da Luz, ao Sol sem ocaso ou à Cidade Santa oferecida.
A pé, sente necessidade de outros pés que o auxiliem, que o acompanhem em momentos de menos êxito ou apenas que lhe facilitem o indispensável para prosseguir.
Envolve-o alguma comunidade que lhe dá sinais de companhia, de apoio e até de alento quando as forças se desleixam e os pés dão sinais de fraqueza demitindo-se do peso excessivo.
Comunidade de “estrangeiros”, também a pé, caminhando mesmo noutras direcções, mas sempre para o futuro e no dinamismo daquelas raízes que os pés assinalam.

A pé, experimentam-se o fascínio do conto e a riqueza de alguma comunhão conseguida.
Cada um prossegue no encanto de uma narrativa que recebe e vai fazendo sua, até marcar na lama aquela admirável sensação de ter chegado, comungado e partido.
A narrativa também é precedente e, à medida do caminho, vai-se tornando a sua narrativa de peregrino.
Pode ser uma narrativa de pastores, pode referir um momento de iluminação, pode veicular histórias ancestrais de uma fonte ou de um rochedo sagrado, pode apenas desafiar a visita de um bosque tapetado de templos ou contar a sensação do canto da água que cai.
Mas, a narrativa vai-se fazendo pessoal à medida que o peregrino a assume na medida em que grava nele os sinais mesmo que fugazes de vislumbre em comunhão.
É a pé que cada homem ou mulher narrar os atalhos por onde passa naquele enamoramento teimoso de superação.
É a pé também que pode comungar com a novidade de um outro lugar onde os próprios pés sentirão mais forte a segurança e a paz.
São estes “céus” de comunhão, em ambientes separados do quotidiano, que concedem à narrativa de cada um uma dimensão sensata.
E é por isso que cada peregrino suspeitará sempre lugares diferentes e, no fascínio de ir mais longe, a pé, encontrará talvez o lugar de todos os lugares, o seu sítio singular, livre e pessoal em comunhão universal.
Aqui, à medida do seu pé, de outeiro em outeiro, ou de santuário em santuário, assinala na sua narrativa este desejo em aprofundamento constante. A pé, toma nota de que é inalcançável a medida dos seus pés.

3. Ao pé

A viagem que vai efectuando, afinal, faz entrever que nunca um lugar é demasiado longe. A pé, surge o sentido do possível, dadas as etapas que fazem saborear a experiência, ou a pausa, de um sentido do longínquo já alcançado.
De desejo em desejo, cada lugar é mais próximo do que parecia.
Precisa de esforço a aventura, ultrapassando limites com uma dose grande de exercício, de coragem e de paciência.
Mas, quando a aventura é a pé, a gente, os lugares e as coisas, por mais distantes, estão ao pé, já que o mais necessário é aprofundar o desejo.
Aprofundar é superar, indo mais longe no caminho e sendo capaz de mais comunhão.
Peregrinar a pé suscita a sensação de que o longínquo se torna mais próximo, na respiração, no contacto e na orientação.
A pé, faz-se a experiência da proximidade, de um pé ao pé do meu, ou de pés próximos que fazem caminhada em comunhão.

A pé, o mais transcendente, o mais outro, aquele que é na origem e será no fim, aquele que suscita o caminho e que propõe a estrada para ser mais, vai na frente. Prossegue na dianteira e é reconhecido no rasto sombrio das suas costas.
Aquele que se procura, se busca, na imanência do caminho, vai na frente como próximo, à sombra do qual qualquer estrada é possível mesmo em hora de tórrido calor.
E é desta sombra que brotam muitos possíveis, e é das marcas dos seus pés que sai algum sentido de orientação, e é do fascínio de uma inalcançável profundidade que se abre mais e mais a ousadia de caminhar.
É da sua sombra que todos percebem como é pelo seu Sol que todos se iluminam. Saem dos seus acampamentos, como outrora “em Etam, no limite do deserto” e partem à procura de outro lugar mais livre, mais abundante e mais pacífico.
E, também como outrora, o “Senhor caminha diante deles; durante o dia numa coluna de nuvem, para os conduzir na estrada, e de noite, numa coluna de fogo para os alumiar, para que possam caminhar de dia e de noite.
A coluna de nuvem não se retira durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite”.
Segue na frente como orientação e como luz. A pé, e muito próximo, vai um povo que olha para a frente e que balbucia temerariamente alguns nomes de quem o conduz, mas que nunca lhe viu o rosto, fascinado apenas pela nuvem que guia e encobre ou pelo fogo que alumia e queima.

A pé, a uma distância sempre humana, vai o companheiro de muitos rostos que cria com cada peregrino aquela ânsia de seguir em frente, caminhando à sua medida, na certeza da confiança, e tornando-se um seguidor de quem avança na frente.
Como companheiro, passa e entretém-se ao longo das sendas dos outros e vai com a Sua Voz alterando o número daquele povo de seguidores em busca de mais.
A pé, avança um séquito imenso que, em sua própria língua, entendeu o rumo e que, na diferença de uma narrativa sempre singular, responde de pé àquela voz de guia ao pé de cada um.
Vai ao longo dos mares revoltados de cada um ou dos lagos em serenidade e desafia os irmãos a seguirem atrás, deixando certezas de redes rompidas em demando de uma pesca diferente, mais além e num mar mais profundo.
Nenhum dos seus passos tem medida desproporcionada, mas a Sua voz cria no séquito um excesso, como misto de confiança e de desejo.
Seguem-no, de todos os quadrantes, grandes multidões, vindas de todas as praças humanas, já que é irresistível aquela voz de Boa Nova.

Vai ao pé de cada um, na frente, criando uma sequela de felicidade, pela qual se geram anseios.
É preciso caminhar, murmura como ordem de superação e como partida para um itinerário mais sagrado.
Atravessa na dianteira as cidades mais inóspitas e cruza os sítios históricos de mais aglomeração, entrando e atravessando a propor metas de grande alcance e a criar horizontes de maior realização.
A multidão segue e avança, cheia daquele brilho de olhar que ilumina na frente e quando alguém sobe para poder mirar com mais tempo e com outro rigor, ouve porventura aquela voz “desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
A meta está criada e o horizonte aberto.
É necessário caminhar para ir mais longe, abrindo a bolsa dos trocos e distribuindo na medida daquele excesso recebido no olhar e confirmado na voz.
A salvação realiza-se não apenas naquele encontro de dádiva mas naquela atitude de caminhante, em êxodo de abertura, passando até por caminhos já andados mas agora narrados com uma nova mira no olhar, a da casa de quem vai na frente.
Este novo itinerário é o de um novo peregrino, que agora sabe responder porque soube abrir-se à visita de quem passa.

Foi ao pé de quem passa pelo sicómoro que esta transição se iniciou, levando nela aquela marca de um olhar por diante que não atraiçoa mas que seduz pelo farol do futuro que acende.
Depois da descida, no caminho de ir mais longe, vai-se caminhando de vale em vale, de subida em subida, aprofundando ais e mais aquele tesouro que não se desfaz nem se aprisiona, mas que confere sentido na profundidade e que faz caminhar a alma em busca de plenitude.
Mesmo quando o tesouro se encontra em albergues de paz, depois de tanto pó no caminho de dificuldades e de incógnitas, depois de tantas alternativas sem desfecho que levam os pés a suportar os braços cruzados, mesmo ali, a pausa da felicidade fica “a setenta estádios de Jerusalém”, como aquela aldeia de Emaús, ainda à distância de medida humana para onde é preciso caminhar facilitando à alma outras subidas.
Aquela instância de paz trouxe o alento de uma presença interiorizada enquanto os pés calcavam o pó e a palavra remexia lembranças na narrativa do acontecido. Agora, quem vai na frente está ali ao pé, ao pé da alma onde o tesouro está escondido, ao pé do ser humano que dialoga abrasado e que sente que Alguém lhe tomou o coração.
Vai ali ao pé da raiz do seu ser, tornando os eus passos mais leves e fazendo das novas subidas percursos de menos fastídio.
Está ali ao pé no andar do coração.
Facilitando a viagem e, sobretudo, emprestando-lhe aquele encanto, aquela doce paz, aquele suave perfume ou aquele sentido mais forte que só a voz do Amor entrega de forma delicada.
Avançar é agora menos penoso, porque a senda é a do amor formoso.
Ficou na alma desde aquele albergue e agora caminha mais e mais em profundidade, com mais leveza, porque os pés transportam aquele sereno encontro do tesouro.
A comunhão do amor torna tudo mais gracioso.
Poderá passar por sendas mais inóspitas e ter de se precaver contra obstáculos mais agudos, mas não vai sozinho porque Alguém entrou para ficar com ele e para caminhar com ele.
Assim, passam ocasos na sua narrativa de peregrino, mas o amor segue na frente da alma.

Ali, ao pé da alma, tornando-a enraizada no além, o Amor dá sentido, reformulando-o na diversidade.
Tratar-se-á sempre de não o perder, na mira de quem aquece o coração.
Peregrino, sempre estrangeiro à procura de pausas de felicidade nesta aventura imensa de chegar a Jerusalém, de repousar na Meca Santa ou de ultrapassar o limiar da Eternidade na travessia do Pórtico da Glória.

Ali, de pé, estão quatro anjos sobre os quatro cantos da terra e depois um outro que sobe do Oriente eleva o selo do Deus vivo.
Depois, ali, aparece na visão uma multidão enorme que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Estão de pé, com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, com palmas na mão. Aclamam em alta voz . “A salvação pertence ao nosso Deus. (…)”.

O pé de cada peregrino integra a multidão que, de pé, aclama em alta voz. Ao pé estão os outros para fazer voz com ele.
E ao pá da sua lama está aquela voz do início, do seu princípio, devolvendo-lhe de forma constante aquele signo que dá vida. Caminha, peregrino ; a Cidade Santa já desce do Céu.

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