07/12/2008

"O Caminho"


O Caminho - Dez. 6, 2008
aguarela e texto de Lúcia F. B. Franco

"O mestre Don Juan, manda Carlos Castanheda ir ter com um feiticeiro que tem a capacidade de transformar a percepção de qualquer criatura. O feiticeiro permite que Castanheda se sinta exactamente como uma minhoca.

E o que é que ele sente?

Uma enorme alegria e poder.

Em vez de ser a criatura minúscula e cega que uma minhoca parece aos olhos humanos, Castanheda sentiu-se como um bulldozer a empurrar para o lado cada grão de terra como se fosse um rochedo: era poderoso e forte.

Em vez de dar a sensação de um trabalho servil, a escavação da minhoca era causa de exaltação, a exaltação de alguém que podia deslocar montanhas com o seu corpo.

O caminho tem esta mesma capacidade do feiticeiro.

Reduz-nos ao tamanho de uma pequena formiga na face da Terra. Com a perspectiva longínqua e magnífica da grande montanha que temos pela frente ou a longa planicie com o vento contra.

Carregando apenas o essencial para nos mantermos vivos, (água e comida) e confortáveis, (muda de roupa e saco cama).

O peregrino, quão pequeno ser, face ao Todo, adopta a visão da formiga que forte se sente capaz de carregar dez vezes mais que o seu peso e qual mau tempo, sol escaldante ou dores, enfrenta a montanha corajosamente.

E esta coragem ( que surge no caminho, como que uma dádiva), só se dá e só acontece a quem se disponibiliza (para) a percorrer o caminho.

E o caminho não é um percurso para fazer de btt, a curtir as paisagens, as curvas e as descidas perigosas.

O caminho transcende todo esse percurso fisico (coincidindo com ele geograficamente, sinalizado pelos montículos de pedras deixados para marcar o caminho).

O caminho não são as pedras gastas do chão, calcorreadas pelos peregrinos ao longo de dez séculos. Não são as árvores que deram sombra aos primeiros peregrinos corajosos que seguiam as estrelas ( caminho das estrelas como é apelidado) e que ainda nos acolhem do sol escaldante.

O caminho está para além dessa realidade táctil, numa dimensão que só se atinge quem se disponibiliza – de alma e coração – a caminhar nesse sentido e a essa altura, a esse nível.

Está muito acima do empurrar os pedais para subir a montanha.

Trata-se de um caminho espiritual que acontece dentro de cada peregrino e que uma vez escolhido percorrer, nos eleva à condição da formiga, que fortíssima consegue mover dez vezes o seu peso."


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