29/05/2008

“ O Encontro com o Eu, através do iniciático Caminho de Santiago.”

Lourenço de Almada
II Jornadas de Património de Belmonte – Caminhos da Fé
12 de Abril de 2008
edição actas da C. M. Belmonte, ano 2009

“As motivações que levam as pessoas a percorrer o Caminho de Santiago, a pé mais de 100 km, podem ser múltiplas e muito diferentes na sua natureza.

Mas, independentemente do motivo subjacente à viagem, quase sempre conduzem a um caminho de Peregrinação - até ao seu Ser.
Inclusive, constata-se que, mesmo aqueles que começam como meros turistas ou simples viajantes, quase sempre chegam ao final do itinerário como Peregrinos e daí a designação de “Caminho Iniciático”. Também, justamente por isso se afirma que, quem se dispõe a fazer o Caminho de Santiago, por veredas e montes, muito provavelmente não voltará mais a ser mesma pessoa.
É que, ao longo do percurso, é usual ir acontecendo em Si uma transformação interior que dá início ao aparecimento de um novo Homem - o Peregrino já Iniciado: aquele que ficou mais instruído por tudo aquilo de diferente viu, aprendeu e apreendeu, principalmente, com aquilo que conseguiu registar com os místicos momentos aí presenciados e vividos; aquele que, por ter sentido o que é ser-se espiritual, por ter entrado no seu Eu, daí para o futuro nunca mais vai dar tanta importância às coisas materiais e passa a dar valor à vida pelas coisas mais simples que a natureza lhe oferece.

Como resultado dessa transformação interior o "iniciado" possivelmente aceita melhor a sua «insignificância», por ter sido obrigado a assistir e a viver momentos de grande humildade, perante todo um universo, pelo qual sabe que faz parte, como uma gota ínfima, mas necessária.
E, como reverso da medalha, e por ter maior consciência que faz parte de um Todo, passa a horrorizar-se com outras atitudes várias, por passar a vê-las como fúteis, desinteressantes e inúteis.
Há todo um pensamento que se altera, para melhor – quase todos o dizem, embora existam sempre algumas vozes discordantes, como é normal.

No dias de hoje, esta transformação no pensamento e valores não é consequência directa do facto de existir medo ou pelo elevado risco, de outrora, que as pessoas corriam ao fazer o Caminho de Santiago.
Isso era assim, num passado mais longínquo em que, por vezes, era difícil comunicar rapidamente com alguém – numa época em que as povoações estavam distantes umas das outras, não havia tantas habitações entre elas, não havia automóveis, telefones e demorava a chegar qualquer serviço de assistência médica.
Nessa altura, ao sair de casa, havia quem nem soubesse o tempo que levaria a chegar, nem sequer quais as adversidades morfológicas e geográficas que iria encontrar no trajecto. Isso porque não se dispunha de mapas, imagens fotográficas e discrições fidedignas, já que as que existiam eram quase sempre erróneas ou fruto de relatos fantasiosos.
Por isso, era frequente fazer-se o testamento, no acto da partida para o Caminho de Santiago, com receio de nunca mais voltar.

No entanto, ainda que modernamente muitas destas dificuldades tenham sido esbatidas, nem por isso o Caminho de Santiago se tornou um passeio. Pelo contrário. Desapareceram algumas dificuldades, mas surgiram outras que ocuparam o seu lugar e até, se quisermos, descobrimos que há muitos paralelismos com as anteriores.
Digo mais: as dificuldades devem ser mantidas, em grande parte, porque a razão de um Caminho de Santiago existir, mesmo na actualidade, é este possibilitar o tal desígnio místico de sublimação e percurso interior, que permita fazer-se nele correctamente uma peregrinação, nos moldes do antigamente, indo ao encontro com o Eu interior.

Quase todos os que o fazem, propõem-se a si próprios vencer um conjunto muito grande de obstáculos que devem ser ultrapassados de modo a dar azo ao crescimento do seu Ser mais rapidamente e uma forma mais autentica; nesse sentido, por mais respeito histórico e cultural que tenha sido mantido na sua execução, é ainda mais importante que este esteja de acordo com o imaginário do Peregrino.
Para ir ao encontro deste critério, a chave do sucesso é simples, é voltarmos às nossas origens, ao contacto com a natureza e com os elementos naturais, ao contrário do que fazemos diariamente na vida artificial que criámos nas cidades.
A própria palavra “Peregrinus” dá-nos a explicação. É que ela, segundo consta, vem da junção latina “Per Agros”, “Pelos Campos”.
Tal como aquele que viajava, por razões de fé, para Jerusalém era chamado de “Palmeiro” e o que ia a Roma de “Romeiro”. Assim podemos dizer que o peregrino era identificado por chegar a Compostela pelos campos.
E porque é que o fazia desse modo? Uma das razões devia ser para abdicar de um certo de conforto, que as cidades podiam proporcionar e afastar-se do ambiente «pecaminoso» que lá se vivia e pelo qual se sentia atraído; assim como afastar-se dos maus cheiros e das doenças que subsistiam nos povoados maiores.
Além disso, o facto de ir pelos campos tinha mais vários importantíssimos factores a favor que não devemos minimizar: é que o homem rural é aparentemente rude de aspecto, mas, mais são, mais simpático, mais generoso e mais consciente da sua fé, que punha ao serviço dos carenciados estrangeiros.
Por outro lado, ao decidir ir por campos e trilhos rurais era possível encurtar distâncias e fazer trajectos mais curtos; e, mais importante de tudo, é o facto de um trajecto rural, pelo silêncio lá vivido e por a natureza não estar destruída, proporcionar muito mais facilmente a reflexão, a meditação e a contemplação.

Consequentemente, para ser considerado um verdadeiro Caminho de Santiago, além ter de ser coerente com os registos documentais e monumentais que permitam fundamentar o trajecto, que é o garante da sua autenticidade histórica, deve acima de tudo, tal como antigamente, proporcionar a quem o percorre o contraste com a vida citadina.

Para ser ele um sucesso exemplar no convite ao retiro e ao recolhimento interior, tal como sempre foi, tem de oferecer a serenidade e o ambiente que se vivia no passado e que se quer continuar a reviver.
Para isso, sempre que possível, devem-se tentar evitar todos os factores que não se adeqúem nada com ele e que sejam motivo de stress, de pressa e de competição, visíveis na tensão dos rostos e agressividade das pessoas. Todos eles são consequência dos malefícios e exageros da vida moderna, visíveis no trânsito motorizado, nas zonas urbanas mais poluídas ou industrializadas e nos excessos de um conforto ilusório de uma hotelaria descaracterizada e desprovida de humanismo, para com o seu semelhante.”

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