30/05/2008

”A caminho de Compostela”

Alfredo Magalhães Ramalho
Convite para sessão na Casa Veva de Lima
Lisboa, 26 de Novembro de 2004

“Não terá grande importância saber se a lenda da vinda do corpo do apóstolo São Tiago Maior para Espanha e sua redescoberta no século IX é ou não exactamente verdadeira: tem muito, mas mesmo muito mais interesse lembrarmo-nos de que há mil e duzentos anos toda a gente na Europa acha que sim, ou pelo menos se comporta como se achasse!!!

As peregrinações medievais, todos o sabemos, foram um dos grandes factores de desenvolvimento das economias e sociedades europeias, abrindo caminhos, criando feiras, mosteiros, cidades – e sobretudo fazendo as pessoas re-descobrir hábitos de comunicação; mas, se as romagens a Jerusalém ou Roma foram mais antigas e mais concorridas, as peregrinações a Compostela podem gabar-se de ter sido, muito mais do que as outras, um factor de construção de uma nova entidade europeia. Na verdade, a Roma ou Jerusalém ía-se com um projecto de piedade individual, comum a gente de tantos outros lugares; mas a própria ideia de Compostela foi um “projecto” de Papas e Imperadores - que rápida e bem habilmente aproveitaram o pretexto inesperadamente surgido, para fazer lembrar e sentir a todos os povos da Europa que a Espanha era Cristandade, e que se o esquecêssemos outros credos e outros interesses rapidamente a integrariam na sua esfera de influência.

Ir a Santiago “abraçar o Apóstolo”, como popularmente se diz, sobretudo se formos a pé e em grupo mais ou menos numeroso, como manda a velha tradição, é indiscutivelmente uma experiência única: no aspecto espiritual, no aspecto cultural, no aspecto humano; é entusiasmante, é educativo, é enriquecedor – é ... absolutamente comovedor ! …..”

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